Academia Bacalhau Costa do Estoril

O Carrasco

 

Esta figura lendária, de olhos vendados, que foi utilizada durante muitos séculos pelo poder régio, para punir os condenados, foi bem aproveitada pelas Academias do Bacalhau. E não julguem que foi para terem os olhos vendados. Bem pelo contrário! O Carrasco é nomeado, no início de cada Convívio, para estar atento a todos os Compadres, principalmente durante as intervenções em que deve haver silêncio. A sua função é multar os “mal comportados”, aqueles que durante as reuniões não ligam ao toque do Badalo, falam ao telemóvel, colocam os seus convidados à sua esquerda, não trazem qualquer símbolo da Academia, seja o emblema, seja a gravata, seja “babete”, etc. O nosso Compadre João Rosa Pinto, que foi, desde o início, um dos grandes impulsionadores desta Academia, além dos versos que vêm nesta página, escreveu o texto que vem a seguir:

 

“A figura do “Carrasco”, numa Academia, não é fácil de interpretar, embora o pareça. Foi criada esta figura, antipática para muitos, para meter a mão no bolso dos mais incautos e daqueles que, de propósito, se comportam mal… para serem multados. A sua acção é normalmente cautelosa, para não incorrer no desacordo à multa que tem algo de humorística para que o visado não se sinta punido, mas sim justiçado, justificando a multa aplicada. Nunca deverá ser multado quem nos visita pela primeira vez.

 

Por brincadeira diz-se que o Carrasco foi tirar o curso à Sibéria para poder exercer o seu Poder, que o tem, porque quando o Presidente dá a palavra ao CARRASCO mais ninguém se deve pronunciar, até acabar o Convívio.”

Durante 2006, tivemos só 8 Carrascos, a saber:

 

Eduardo Morais (uma vez), Manuel Dias (3), Alfredo Gonçalves (3), Fernando Cunha (1), Fernando Pereira Alves (2), António Silva (2), Carlos Machado (9) e Fernando João (5). O Carlos Machado e o Fernando João foram os mais aproveitados para esta figura cruel, talvez pelo bom humor que trouxeram aos Convívios. Houve, no entanto, uma figura que se destacou pelas duas vezes que actuou: o Fernando Pereira Alves.

 

Parabéns a todos!

 

O Carrasco

 

Em tempos que já lá vão, já existia

Um carrasco, de figura odiosa

A quem crime cometia, enforcava

Se era grave, o pescoço ele cortava

Silhueta de fantasma, tenebrosa

 

Mas esses tempos mudaram e o monstro

Durante centenas de anos não voltou

Do carrasco ninguém mais ouviu falar

Até que em certa festa, num jantar

A lembrança de um “carrasco” regressou

 

Nesse lauto jantar da Academia

Dois Compadres em discussão acesa

De carteiras abertas, discutiam

Que queriam pagar, eles insistiam

Que era deles toda aquela despesa

 

Para que houvesse Paz, logo um “Juiz”

Para os dois, a sentença ali ditava

Um “carrasco” ali mesmo nomeou

Que, a ambos, igual despesa cobrou

E a Academia…embolsou o que sobrava!

 

A partir desse jantar foi decidido

Que, haver um Carrasco, era preciso

Para cobrar a quem mal se portasse

Ou as normas e regras ignorasse,

E assim…contribuir…com um sorriso!

 

Por isso, Compadre, comparece

E dá, a direita, ao Convidado

Traz a insígnia da nossa Academia

E pensa que és Compadre de valia

No dia em que, também, fores multado!

 

Cascais, Maio de 2001

João Rosa Pinto (Compadre)